Esquecimento não é falha de caráter, é disfunção neurológica de ambiente desestruturado

 Esquecer compromissos, perder o fio do raciocínio no meio de uma frase, reler o mesmo parágrafo três vezes sem reter nada. Isso costuma ser interpretado como falta de atenção ou de organização pessoal. Na prática clínica, o que eu vejo na maioria dos casos é outra coisa: um sistema nervoso sobrecarregado por um ambiente desestruturado, sem rotina, sem previsibilidade, sem limites claros entre trabalho e descanso.

O hipocampo, estrutura responsável pela consolidação de memória, é extremamente sensível ao cortisol elevado de forma sustentada. Em ambientes caóticos, com demandas constantes e imprevisíveis, o cérebro permanece em estado de alerta, e recursos que deveriam ir para memória e concentração são redirecionados para vigilância. O esquecimento, nesse contexto, não é o problema em si. É sintoma de um sistema que está gastando energia em sobrevivência, não em cognição.

Para reverter esse padrão, trabalho com meus pacientes a partir de quatro bases que sustentam o conceito de Ikigai (aquilo que dá sentido e direção à vida) e que, na prática clínica, funcionam como pilares de reorganização neurológica:

O que você ama. Ambientes desestruturados apagam o contato da pessoa com o que genuinamente a motiva. Resgatar isso reativa circuitos de recompensa (dopamina) que sustentam foco e motivação, os mesmos que o esgotamento crônico desliga.

Aquilo em que você é bom. Quando a pessoa perde clareza sobre suas próprias competências, cada tarefa vira um esforço cognitivo maior do que precisaria ser. Reconhecer competência reduz a carga de incerteza que o cérebro processa a cada decisão.

O que o mundo precisa de você. Propósito claro dá ao cérebro um critério de priorização. Sem ele, tudo parece igualmente urgente, e é essa ausência de hierarquia que mais sobrecarrega a atenção em ambientes caóticos.

Aquilo pelo qual você pode ser reconhecido. Estrutura externa (metas, feedback, reconhecimento) ajuda a compensar a falta de estrutura interna quando o sistema nervoso já está esgotado.

A Medicina Chinesa entra nesse processo tratando diretamente o terreno fisiológico que sustenta esses quatro pilares: fortalece o Baço, ligado à concentração e à clareza mental, acalma o Coração, que abriga o Shen, a mente, e regula o Fígado, cuja estagnação de Qi está por trás da sensação de estar travado, sem direção. Sem esse trabalho de base, é difícil sustentar qualquer um dos quatro pilares, porque o corpo continua operando em modo de sobrevivência.

Foi essa combinação, entre a filosofia japonesa do Ikigai e a Medicina Tradicional Chinesa, que trouxe da minha vivência entre China, Japão e Canadá para o trabalho que faço hoje na Ikigai Shinkō: tratar o corpo para que a mente tenha condição real de organizar o que o ambiente não organiza.

Mayra Barbosa, Fisioterapeuta especializada em Medicina Chinesa (CREFITO 218640-F), Mestre em Cognitive Science, fundadora da Ikigai Shinkō







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