Ikigai e neurociência: como o propósito influencia nossas escolhas, a motivação e o bem-estar?

 


Uma reflexão entre a filosofia japonesa e as Ciências Cognitivas

O que faz com que uma pessoa acorde todos os dias com vontade de construir algo, enquanto outra, mesmo tendo alcançado muitas de suas metas, sente que falta sentido em sua trajetória?

Essa pergunta me acompanha na interseção entre saúde, comportamento humano e ciência. Minha experiência profissional, o contato com diferentes culturas, minha vivência no Japão e meus estudos em Cognitive Science ampliaram meu interesse por uma questão fundamental: como construímos sentido para nossas experiências e de que maneira esse sentido influencia nossas escolhas?

Uma das perspectivas que considero especialmente interessantes para essa reflexão é o Ikigai, conceito japonês frequentemente associado àquilo que torna a vida significativa e digna de ser vivida.

Ikigai: mais do que encontrar uma profissão

No contexto japonês, Ikigai pode estar relacionado a diferentes dimensões da vida: relações afetivas, atividades cotidianas, trabalho, aprendizagem, participação na comunidade e pequenos motivos que tornam o dia significativo.

Por isso, reduzi-lo à ideia de encontrar uma única missão profissional pode limitar a riqueza do conceito.

O Ikigai não precisa representar uma grande descoberta. Pode estar presente na construção de um projeto, no cuidado com alguém, no desenvolvimento de uma habilidade ou na satisfação de perceber que estamos avançando em uma direção que faz sentido para nós.

Essa perspectiva nos convida a pensar no propósito não apenas como um destino a alcançar, mas como algo que pode ser construído e reconhecido ao longo da vida.

O que a neurociência nos ajuda a compreender?

A neurociência não identifica um único centro cerebral responsável pelo propósito. Entretanto, pesquisas sobre motivação, aprendizagem, recompensa e autorregulação ajudam a compreender processos que podem participar da construção e da manutenção de objetivos significativos.

Três dimensões merecem atenção.

1. Motivação e sistemas de recompensa

A motivação envolve circuitos cerebrais relacionados à aprendizagem, à expectativa de resultados e à seleção de comportamentos. A dopamina participa de processos de aprendizagem por recompensa e da atribuição de importância motivacional a determinados estímulos.

Isso não significa que ter propósito seja simplesmente “ter mais dopamina”. Significa que objetivos percebidos como relevantes podem influenciar aquilo a que dedicamos atenção, esforço e persistência.

2. Aprendizagem e construção de novos comportamentos

Nosso comportamento é influenciado por experiências anteriores, expectativas, contexto e hábitos. Quando estabelecemos objetivos e desenvolvemos estratégias para alcançá-los, mobilizamos processos de aprendizagem, memória e tomada de decisão.

O propósito pode funcionar como uma referência para organizar escolhas, mas sua realização também depende de condições concretas, recursos disponíveis, saúde e apoio social.

3. Bem-estar e significado

Estudos em psicologia e saúde pública associam a percepção de sentido na vida a diferentes indicadores de bem-estar. Essas associações são relevantes, mas não demonstram, por si só, que o propósito seja a causa direta de melhores resultados de saúde em todas as pessoas.

O sentido da vida não elimina o sofrimento, a ansiedade ou as dificuldades. Pode, contudo, participar da maneira como interpretamos experiências e organizamos nossas prioridades.

Propósito não é apenas querer: é construir uma direção

A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Richard Ryan e Edward Deci, oferece uma contribuição importante para essa discussão. Os autores destacam três necessidades psicológicas fundamentais para a motivação e o desenvolvimento humano: autonomia, competência e vínculo com outras pessoas. Quando essas necessidades encontram condições favoráveis, podem apoiar a motivação autônoma e o bem-estar.

PubMed

Essa perspectiva permite estabelecer uma aproximação conceitual com o Ikigai: encontrar sentido pode envolver reconhecer aquilo que valorizamos, desenvolver nossas capacidades e perceber como participamos do mundo ao nosso redor.

Não se trata de afirmar que a teoria científica comprova o Ikigai, mas de investigar como diferentes perspectivas podem contribuir para compreender a motivação humana.

O propósito também pode mudar

Outro aspecto importante é compreender que o sentido da vida não precisa permanecer igual em todas as fases.

Mudanças profissionais, experiências culturais, relações, desafios e novas aprendizagens podem modificar nossas prioridades. A busca por significado também faz parte da experiência humana, como discutem Steger e colaboradores (2006) ao diferenciarem a presença de sentido da busca por sentido na vida.

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Talvez seja justamente aí que o Ikigai se torne uma perspectiva tão interessante: ele nos permite refletir sobre a possibilidade de construir significado sem exigir que tenhamos todas as respostas desde o início.

Em vez de perguntar apenas “qual é o meu propósito?”, podemos começar com questões mais concretas:

  • Quais atividades despertam minha curiosidade e meu envolvimento?

  • Em quais situações sinto que estou aprendendo e desenvolvendo minhas capacidades?

  • Que relações e contribuições dão significado à minha trajetória?

  • Minhas escolhas atuais estão alinhadas com aquilo que considero importante?

Essas perguntas não substituem uma avaliação psicológica ou clínica. São pontos de partida para a autorreflexão e para escolhas mais conscientes.

Uma reflexão a partir da minha trajetória

Minha aproximação com o Ikigai também passa pela experiência de viver em diferentes culturas, pelo contato com a realidade da saúde no Japão e na China e pelo aprofundamento acadêmico em Cognitive Science.

Essas experiências ampliaram meu interesse pelas diferentes formas de compreender o ser humano. A ciência nos oferece ferramentas para investigar mecanismos de aprendizagem, motivação e comportamento. A experiência clínica nos coloca diante da singularidade de cada pessoa. E o contato com outras culturas nos convida a questionar pressupostos que, muitas vezes, consideramos universais.

É nesse encontro que vejo espaço para uma investigação contínua: como aproximar conhecimento científico, experiência clínica e reflexão sobre o sentido da vida sem reduzir um campo ao outro?

Para mim, o Ikigai não precisa ser entendido como uma fórmula para alcançar a felicidade. Pode ser um convite para observar a própria trajetória, reconhecer o que tem significado e construir, ao longo do tempo, uma direção coerente com nossos valores.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que queremos alcançar, mas que sentido estamos construindo enquanto caminhamos.

E você: o que hoje dá sentido às suas escolhas e como isso mudou ao longo da sua trajetória?

Referências bibliográficas

1. SARTORE, M. et al. An Integrated Cognitive-Motivational Model of Ikigai (Purpose in Life) in the Workplace. Europe's Journal of Psychology, v. 19, n. 4, p. 387–400, 2023. DOI: 10.5964/ejop.9943.

PMC

2. RYAN, R. M.; DECI, E. L. Self-determination theory and the facilitation of intrinsic motivation, social development, and well-being. American Psychologist, v. 55, n. 1, p. 68–78, 2000. DOI: 10.1037/0003-066X.55.1.68.

PubMed

3. STEGER, M. F.; FRAZIER, P.; OISHI, S.; KALER, M. The Meaning in Life Questionnaire: Assessing the Presence of and Search for Meaning in Life. Journal of Counseling Psychology, v. 53, n. 1, p. 80–93, 2006. DOI: 10.1037/0022-0167.53.1.80.

Info Management Systems

4. KING, L. A.; HICKS, J. A. The Science of Meaning in Life. Annual Review of Psychology, v. 72, p. 561–584, 2021. DOI: 10.1146/annurev-psych-072420-122921.

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